Escavações encontram ossos em ex-cemitério na Glicério

Corpos foram sepultados ao lado da Igreja do Rosário, construída em 1817 e demolida em 1956, para possibilitar o alargamento da avenida
Fragmentos foram localizados na calçada da Praça Guilherme de Almeida (em frente ao Palácio da Justiça), próxima da Rua General Osório, onde ficava o antigo cemitério

Fragmentos foram localizados na calçada da Praça Guilherme de Almeida (em frente ao Palácio da Justiça), próxima da Rua General Osório, onde ficava o antigo cemitério
Fragmentos de ossos começam a ser encontrados nas escavações para a revitalização da Avenida Francisco Glicério, no Centro de Campinas, e que podem ser de corpos sepultados no cemitério que havia ao lado da Igreja do Rosário, construída em 1817 e demolida em 1956, para possibilitar o alargamento da avenida.

Na terça-feira, dois fragmentos foram localizados e, na quarta (24), outros três, todos na calçada da Praça Guilherme de Almeida (em frente ao Palácio da Justiça), próxima da Rua General Osório, onde ficava o antigo cemitério. O material foi enviado à Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC) para confirmar se são fragmentos de ossos humanos e guarda.

A expectativa é que ainda possam aparecer resquícios do alicerce da antiga igreja quando a escavação chegar na metade da Avenida Campos Salles, o que deve ocorrer no domingo.

Os ossos foram encontrados por funcionários que estão abrindo a calçada para a troca da rede de esgoto e estavam a uma profundidade de cerca de dois metros.
O arquiteto da CSPC, Luiz Antônio Aquino, está acompanhando a escavação naquele trecho da Glicério, para que que o local seja tratado como sítio arqueológico, na eventualidade de surgirem alicerces da igreja. A proposta é preservar o local para um trabalho como o que ocorreu quando a Rua 13 de Maio passou por revitalização e paredes e alicerces dos teatro São Carlos e Carlos Gomes foram encontrados.

Na abertura da valeta na praça, os alicerces não apareceram. Haverá ainda escavações para a passagem da fiação e pode ser que, nessa fase, parte remanescentes da igreja apareçam, porque a fachada do templo chegava até a segunda das cinco faixas de trânsito da Glicério, e pela Campos Sales, também ocupava até a segunda faixa da atual avenida.

O pesquisador Valdir de Oliveira esperava mais atenção às escavações naquela parte da avenida.

“Era para ter um arqueólogo acompanhando a abertura das valetas, porque esse local é de muita importância para a cidade, para a comunidade negra”, disse.
“Encontrei os ossos em um canto da obra, peguei o material, sai com ele, ninguém percebeu, voltei e ia levar no quarto andar da Prefeitura (onde está o gabinete do prefeito) para mostrar como a história de Campinas é tratada”, afirmou. Oliveira acabou entregando os ossos a Aquino, que acompanha as escavações.
O pesquisador está preocupado com a forma como a valeta está sendo aberta, como uma escavadeira. “Se tiver algo ainda enterrado, ela pode destruir. Aqui era preciso um trabalho manual, cuidadoso, para evitar destruição de fragmentos que possam ter interesse histórico”, afirmou.
A Igreja do Rosário era o lugar dos negros. Construída primitivamente em taipa de pilão por iniciativa do padre Antônio Joaquim Teixeira de Camargo, foi inaugurado em 1817, para ser sede da segunda irmandade de homens pretos, dissidentes da Irmandade de São Benedito.
Em meados do século 19 foram feitos melhoramentos na capela para que ela ficasse em condições de receber D. Pedro II e sua comitiva imperial, em sua primeira visita a Campinas, em 1846. Sua inauguração solene ocorreu em setembro de 1899. Pouco tempo antes, ela passou a ser administrada por missionários claretianos espanhóis.
A reforma urbanística vivida por Campinas na década de 30, sacrificou a igreja para o alargamento da avenida. No dia 09 de maio de 1956 foi assinada a escritura definitiva da desapropriação da Igreja do Rosário e dias depois, sob protestos, começaram a demolição. Uma nova igreja “do Rosário” foi construída nos loteamentos do Chapadão.

Patrimônio

Os achados nas escavações da Avenida Francisco Glicério ficarão sob a guarda da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC). Esse setor não dispõe de local para exposição, embora já exista sob sua guarda uma série de achados em outras obras ocorridas na cidade. São tijolos, telhas, cerâmicas que formam um pequeno acervo, ainda a espera de identificação.
A historiadora Daisy Ribeiro, da CSPC, disse que a primeira providência será identificar se os ossos são humanos. Estamos fotografando e mapeando os achados, fazendo uma descrição do material e guardando, para futuro trabalho de pesquisa.
“Temos pela frente um trabalho de tentar encontrar um lugar onde possamos guardar esse acervo coletado em diversas obras, para disponibilizar à pesquisa e a visita”, disse. Alguns objetos já estão sob a guarda do Museu da Cidade.
A expectativa de encontrar os alicerces da Igreja do Rosário foi frustrada na abertura da calçada, onde ficava a fachada frontal da antiga igreja.

Fonte: RAC

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